11 de fevereiro: mulheres e meninas na ciência, carreira EBTT e educação pública na Rede Federal
O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado anualmente em 11 de fevereiro, foi instituído pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 2015 para dar visibilidade à contribuição feminina no campo científico e tecnológico e para chamar atenção às desigualdades ainda existentes nesse setor. Essa data é uma oportunidade não apenas para celebrar, mas para aprofundar a análise das condições materiais e institucionais que sustentam ou limitam a participação de mulheres na ciência pública brasileira.
Brasil e o desafio da igualdade de gênero na ciência
Dados internacionais revelam que a desigualdade de gênero na ciência persiste globalmente: menos de um terço dos pesquisadores no mundo são mulheres, cerca de 31% dos pesquisadores em 2022, apesar de avanços gradativos na participação feminina na educação superior e na pesquisa científica.
No Brasil, relatórios indicam que as mulheres representam quase metade dos pesquisadores que assinam publicações científicas, alcançando cerca de 49% do total, o que coloca o país entre os que apresentam maior participação feminina no cenário internacional, atrás apenas de poucos países comparáveis.
Entretanto, esse panorama contrasta com a persistência de desigualdades mais profundas:
- Apesar da predominância feminina entre os estudantes de mestrado e doutorado, as cientistas brasileiras ocupam menos posições de destaque em bolsas de produtividade, que correspondem aos mais altos reconhecimentos de mérito científico no país, com apenas 35,5% dessas bolsas sendo concedidas a mulheres.
- A sub-representação feminina é ainda mais acentuada em áreas tradicionalmente dominadas por homens, como tecnologia da informação, engenharia e matemática, onde as mulheres representam uma fração significativamente menor dos graduandos e profissionais.
Ou seja, apesar de avanços quantitativos na formação acadêmica, a presença feminina no topo da carreira científica e tecnológica ainda é desigual, refletindo persistentes barreiras institucionais e sociais.
A Rede Federal, a carreira EBTT e a produção de ciência
A Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica tem um papel central na formação de profissionais científicos, tecnológicos e de inovação no Brasil, articulando ensino integrado, pesquisa aplicada e extensão com os territórios. Nesse espaço, as mulheres estão envolvidas não apenas como estudantes, mas como docentes, tutoras de iniciação científica, coordenadoras de projetos e técnicas-administrativas que sustentam laboratórios, unidades de pesquisa, redes de inovação e processos de extensão tecnológica.
No entanto, a participação das mulheres nas instâncias de direção, de gestão e na liderança de grupos de pesquisa qualificados ainda enfrenta obstáculos, muitos deles relacionados à organização do trabalho docente, à dupla jornada imposta historicamente às mulheres e à ausência de políticas institucionais robustas de permanência.
Os Cadernos de Políticas Educacionais do SINASEFE apontam de forma consistente que a carreira EBTT e outras carreiras da rede federal com sua indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, não pode ser apenas uma construção retórica. Para que ela se concretize de fato como carreira, é necessário garantir condições estruturais de trabalho — com definição clara das atividades docentes, critérios objetivos de progressão e desenvolvimento, e mecanismos que permitam a estabilidade profissional.
Sem essas condições, a produção científica e tecnológica na Rede Federal fica fragilizada, e as desigualdades de gênero são aprofundadas, reproduzindo padrões de sub-representação em espaços de poder e reconhecimento científico.
Condições de trabalho e permanência
A permanência das mulheres na ciência passa necessariamente pela garantia de condições materiais de trabalho. Estudos apontam repetidamente a existência de um “efeito tesoura” na carreira científica: enquanto as mulheres são maioria em estágios iniciais da formação (como graduação e pós-graduação), sua presença diminui significativamente conforme se avança na carreira, chegando a ser minoritária nos níveis superiores de senioridade e liderança — um padrão reconhecido internacionalmente.
No Brasil, essa dinâmica se manifesta na menor presença de mulheres em posições de liderança em laboratórios, menor participação em comitês de avaliação e em frações menores entre grupos de pesquisa altamente produtivos.
Ciência pública, pacto sindical e a luta do SINASEFE
Para o SINASEFE, a defesa da ciência pública e da presença das mulheres na ciência é inseparável da luta por condições dignas de trabalho para docentes e TAEs da Rede Federal. A materialidade dessas condições está diretamente ligada ao cumprimento integral do Termo de Acordo nº 10/2024:
- Retorno dos steps e recomposição de carreira garantem previsibilidade salarial e progressão estável;
- Reenquadramento e regulamentação da carreira EBTT definem com clareza as atividades de pesquisa e inovação no conjunto das atribuições docentes;
- Valorização das TAEs em pesquisa e tecnologia reconhece formalmente o papel dessas trabalhadoras no desenvolvimento científico da Rede;
Esses elementos, longe de serem meras pautas corporativas, constituem mecanismos concretos para fortalecer a presença e a permanência das mulheres na produção científica da educação pública. Sem carreira valorizada, sem financiamento sustentável, sem estruturas de trabalho adequadas, as políticas de acesso e igualdade tendem a permanecer restritas à retórica, sem transformar as condições reais de produção do conhecimento.
Educação tecnológica e meninas na ciência
A Rede Federal desempenha um papel essencial na formação de meninas tecnólogas e cientistas desde o ensino integrado até a pós-graduação. No entanto, garantir essa formação exige políticas públicas e institucionais que enfrentem:
- o machismo estrutural que subvaloriza corpos femininos na ciência;
- as desigualdades raciais que dificultam o acesso e permanência de meninas negras e indígenas;
- as barreiras institucionais que marginalizam meninas trans, com deficiência ou neurodivergentes.
O 11 de fevereiro não pode ser apenas um dia de discurso motivacional, precisa ser um compromisso de ação e transformação.
Caminhos para a equidade na ciência pública
A equidade de gênero na ciência, conforme ressaltado em diversas análises internacionais, requer não apenas incentivo à formação, mas políticas robustas de permanência, financiamento sustentável, suporte à maternidade e cuidados, assim como espaços que reconheçam e valorizem a diversidade de trajetórias e saberes femininos no sistema científico e tecnológico. A luta sindical do SINASEFE, ao enfatizar também a luta por carreira e a valorização dos TAEs e docentes, bem como o cumprimento integral dos acordos negociados, preocupando-se também com a questão das mulheridades na rede federal tecnológica compreende-a também como diretamente conectada à consolidação de uma ciência pública diversa, democrática e comprometida com a justiça social.
